9.18.2006

Com olhos de lince vemos longe, com olhos clínicos podemos diagnosticar e, com o olho mágico é possivel ver através da porta. Desde a linguagem popular o olhar, a visualidade rege uma forma de entender, refletir sobre o homem e o mundo em que ele vive. Assim levanto os seguintes questionamentos: Com o olhar etnográfico, registramos o que é a sociedade e a experiência de fazer parte dela ?; Com o olhar fotográfico, resignificamos a imagem a partir do ponto de vista do fotógrafo?; Devemos “ver com olhos livres”, um olhar único e singular para nos descobrir e redescobrir no outro e o outro em si mesmo ?

Assimo como a antropologia, a fotografia tem um observador participante, que busca detalhaes e fareja com seu olhar o alvo, objeto de suas lentes e interpretações.

Com a fotografia pela primeira vez no processo de reprodução de imagens, as mãos foram liberadas das resposabilidades artísticas, e estas responsabilidades cairam todas sobre o olho. O olho “prende” a imagem, mais rápido do que a mão desenha. O processo passou por uma evolução tão rápida que começou a situar-se no mesmo nível da palavra oral.

Não podemos falar de(o) olhar, principalmente do olhar fotográfico antes de contextualizar a fotografia.
A fixação de uma imagem em uma placa, iodada e única e cria várias reações. Os artitas acostumados a retratar a burguesia temem perder sua “importancia” quando a fotografia retrata com maior fidelidade, “realidade” o seu retratado (decalque do real), ainda mais quando democratiza o retrato pelos seus preços muito mais baixos. Os intelectuais, criticam a ausência de um gênio artístico nas fotografias.
A fotografia retira da arte a necessidade de realidade, assim os artistas realistas, passam a ir em busca das formas e cores.
Na década de 1840, Fox Talbot utiliza a câmera para captar fragmentos da realidade, fotografa insetos, plantas, conchas e flores, dá a fotografia um carcter científico, amenizando, em parte, a rivalidade com a pintura.
Foi com a união dos registros social e artísticos, que a fotografia aparece como linguagem, linguagem esta defendida em movimentos como Photo Secession, na revista Câmera Work (1903/1917), liderada pelo fotógrafo americano Alfred Stieglitz (1857-1946).
Os fotografos muitas vezes foram acuzados até de “roubar almas”, muitos não se deixavam fotografar, pois a fotografia eternizaria uma imagem antes apenas passageira dos espelhos.
Assim cria-se um paradigma a ser quebrado, que a fotografia é uma cópia do real, realidade esta indiscutível, cria-se uma superficialidade da imagem (vide post anterior). “Se a imagem nos mostra assim, assim deve ser” (Guarner)

“(...) a fotografia é um duplo testemunho: por aquilo que ela nos mostra da cena passada, ali congelada fragmentariamente, e por quilo que nos informa acerca de seu autos(...) é um testemunho segundo um filtro cultural, ao mesmo tempo pe uma criação a partir de um visível fotográfico. Toda a fototografia representa o testemunho de uma criação. Por outro lado, ela representará sempre a criação de um testemunho (Kossoy, 1999, p. 33 citado no livro de Rosane de Andrade, Fotografia e Antropologia: Olhares fora-dentro, 2002, p 42)”

Olhar para o mundo é uma condição; mundo do qual fazemos parte e não penas estamos nele, compreende-lo por meio deste olhar é uma busca eterna, instigante e fascinante. Fascinante porque é pela contemplação da beleza do mundo que nos encantamos e nos apaixonamos. Instigante por que a vontade de mergulhar em seu desconhecido pode nos levar ao diferente e transformar a nossa forma de olhar.
Quando mergulhamos em uma imagem percebemos que não existe apenas um mero registro da realidade, mas sim uma cumplicidade do autor com o objeto fotografado.
A imagem fotográfica passa a receber significados e resignificações no ato de fotografar e a cada olhar jogado sobre esta imagem de seus expectadores que também são intérpretes.
De um olhar suerge uma imagem, e o olhar fotográfico é uma forma pessoal de olhar e registrar e registrar-se.

Quando nos percebemos e nos atentamos para um objeto com determinado reparo e cuidade, estamos identificando-o, trazendo dele o diferente, captando sua aura, tornado-o único. Por um instante, a fototografia faz o modernos e cria o passado. Em um instante, o que era moderno, portanto inexistente, identifica-se, delimita-se, é marcado e recortado pelo artista da fotografia.

As coisas são antes de obterem um significado. Uma árvore. Uma borboleta, uma pedra simplismente são. São anteriores ao siginificado que estabelecemos, como exemplifica o poema de Fernando Pessoa/Alberto Caeiro:

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela a primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não tem cor nem movimento,
Assim como as flores não tem perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor apenas flor.

9.14.2006

Franz Kafka : "... a fotografia concentra seu olhar sobre o superficial, desse modo obscurece a vida secreta que brilha através dos contornos das coisas num jogo de luz e sombra. Não se pode captar isso, nem mesmo com o auxilio das lentes mais poderosas. Devemos nos aproximar dessa vida interior pé ante pé..." (trecho de Dubois, 1994, p. 44 citado no livro de Rosane de Andrade, Fotografia e Antropologia: Olhares fora-dentro, 2002, p 41)

Kafka que costumava descrever o interior de seus personagens, fala de uma superficialidade da imagem fotográfica. Porém existem outras tantas correntes que o contradizem, este é um bom inicio para uma discução sobre o(s) significado(s) da imagem fotográfica. Várias questões podem ser levantadas, como: A uma nova interpretação a cada observação(or) (?), A fotografia apenas congela o momento (?), O filtro do olhar do fotógrafo direciona a apenas uma interpretação(?), Como um cego "enxerga" a imagem através dos sons (?), essas e outras questões devem ser levantadas e discutidas no decorrer da pesquisa.

9.12.2006

Estou no começo, ler e escrever mais profundamente.Vou postar uma poesia que achei muito interessante à foto-etnologia.

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho,
Ninguém passava entre as casas.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive visões naquela madrugada.

Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim
No beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.

Vi uma lesma pregada na existência
Mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.

Vi ainda um azul-perdão
no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.

Olhei uma paisagem velha
A desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.

Por fim enxerguei a
Nuvem de calça.
Representou para mim
Que ela andava na aldeia de
Braços com Maiakovski
- Seu criador.
Fotografei
A nuvem de calça

E
O poeta.
Ninguém-outro poeta
No mundo faria
Uma roupa mais justa
Para cobrir
A sua noiva.
A foto saiu legal.


Manoel de Barros
(O Fotógrafo - Ensaios Fotográficos)

9.07.2006

Depois de apresentar o recorte, vou anexar a pesquisa bibliográfica inicial, caso novas questões apareçam durante a pesquisa e reflexão posso adicionar mais materiais ...

Mas inicialmente o levantamento está assim:

Fotografia e Antropologia: Olhares fora-dentro, Rosane de Andrade.
Livro indicado pelo coordenador Fabrizio que abriu o caminho para o pensamento da fotografia etnográfica e a construção deste olhar.
Filosofia da caixa preta: Ensaios para uma futura filosofia da fotografia, Vilém Flusser.
Outro livro indicado por meu coordenador Fabrizio, este livro usarei como base para o início da pesquisa, como disse o Fabrizio “para abrir a cabeça”, me fazer pensar diferente algumas coisas. O livro traz fotografia como revolução cultural, trata questões chave sobre a imagem, aparelho, programa, informação.

A Câmara Clara, Roland Barthes
Clássico da fotografia. Trabalha o olhar e a semiótica da imagem fotográfica.

A imagem precária: Sobre o dispositivo fotográfico, Jean-Marie Shaeffer.
Vou usar o segundo capítudo “O ícone indicial”, texto que ainda vou ler mas me pareceu bastante importante por tratar a imagem fotográfica: signo, carga temporal e espacial, o filtro olhar fotográfico, a “objetividade” da imagem (informação objetiva ou subjetiva).

O fotográfico, Organizado por Etienne Santin.
Desta coletânea de artigos escolhi alguns:
- O etnológo e suas Imagens. Sébastien Barbon, texto que aborda a importância da imagem fotográfica na antropologia mas levanta as questões das realidades e múltiplas interpretações;
- Um retorno a câmara clara de Roland Barthes e a antropologia visual. Etienne Santin, como o próprio título revela, uma releitura do seu último livro e traça alguns paralelos sobre um novo olhar proposto;
- Olhares Cruzados. Ensaio Comparativo enre as abordagens fotográfia e etnográfica. Sylvain Maresca. O próprio título já revela seu conteúdo;
- Os três paradigmas da imagem. Lúcia Santaella. Discute sobre 3 paradigmas da imagem os pré-fotográficos, fotográficos (fotos, filmes, videos...) e imagens totalmente computadorizadas (sintéticas ou infográficas);
- A fotografia sob o impacto da eletrônica. Arlindo Machado. Analisa o impacto digital sobre o conceito da fotografia, processos que independem da câmara. Texto escolhido para trazer uma discussão sobre as intervenções digitais sobre a fotografia e seus significados;
- Fotografia: a questão eletrônica. Carlos Fadon Vicente. Texto escolhido para tratar novamente da reinvenção dos aspectos técnicos, estéticos e éticos da fotografia digital.

O ato fotográfico, Philippe Dubois.
Desse uso, criações de realidades pela fotografia, livro vai tratar 3 linhas de construção: “fotografia como espelho do real”, “fotografia como transformação do real” e “fotografia como traço do real”. Outo assunto levantado é a questão do corte espaço-tempo da fotografia.

Realidade e Ficçãos na trama fotográfica, Boris Kossoy.
Este bota a prova um conceito clássico da fotografia documental, traz a fotografia como um fragmento, uma interpetação do olhar do fotógrafo, filtros da realidade que podem representar exatamente oq ela é ou trasnforma-la. Exatamente a contrução de multiplas realidades.

O surrealismo e a estética fotográfica, Fernando Braune.
Deste selecionei apenas o ultimo capítulo: “O cego, a fotografia e a sociedade contemporânea”. Busco neste uma essência de uma “olhar não visual”, o olhar fotográfico dos cegos, influencia dos sons, ambiente entre outros no olhar.

O fotográfico, Rosalind Kraus.
Espaços discursivos da imagem fotográfia, quanto a imagem e sua plurisignificação. A imagem “quando lhe falham as palavras”, fotos montagens (como as Moholy-Nagy), ampliação das realidades de uma única foto, e construção de novas fotos a partir de várias. Intervenções nas imagens são o foco que “recortei” do livro.

Janela da alma, Walter Carvalho e João Jardim.
Documentário, apresenta dezenova pessoas com diferentes graus de deficiência visual - da discreta à cegueira total - que narram como se vêem, como vêem os outros e como percebem o mundo. Uma experiencia do olhar!

Por enquanto são estes meus materiais de pesquisa, como disse podem e/ou devem sofrer modificações com o decorrer da pesquisa. Até a próxima.

9.05.2006

Antes de mais nada, devo lhes mostrar qual o meu recorte, como cheguei nele e o que quero dizer e pesquisar com o mesmo !
De inicio, pensei em trazer a fotografia como imagem a ser estudada, já que o tema geral é turismo. Além de escolher a Vila de Paranapiacaba como o local onde produziria as imagens. Assim, pensei na dualidade da imagem fotográfica e no seu mais constante conflito : a fotografia é apenas imagem congelada, hiper-realista (?) ou é uma imagem de diversos significados com total influência do primeiro filtro do olhar do fotógrafo?! Então coloquei de inicio o recorte como: Dualidade da imagem fotográfica de Paranapiacaba.

Nas primeiras conversar com meu coordenador de pesquisa Fabrizio, ele me alertou sobre o quão amplo ainda estava o recorte e falou sobre Pierre Verger, fotógrafo etnólogo. Fui atrás dessa vertende etnográfica e ela caiu como uma luva no tema paranapiacaba, uma vila muito interesante a receber este diálogo. Após ler um pouco sobre o a etnologia aliada à fotografia mudei o recorte: Dualidade fotográfica da imagem etnológica de Paranapiacaba.
Na continuidade da pesquisa, mais precisamente no levantamento bibliográfico, encontrei mais algumas questões importantes naquilo que queria pesquisar: coisas como intervenções nas imagens, evolução técnica e tecnológica da fotografia, uma chamada "angústia" do fotógrafo diante da plurisignificação de suas imagens, fragmentação de significado e a arte fotográfica colocada à prova. Fui lapidando o recorte, aos poucos. Transformei a Dualidade em Multiplicidade, Fotografia etnológica em foto-etnológia e restringi mais a pesquisa adicionado a construção de realidades pelas imagens e intervenções.
Acabo agora por apresentar o recorte pronto (!) :
"Multiplicidade da imagem foto-etnológica de Paranapiacaba: Intervenções ressaltando as inúmeras realidades".
Pretendo com esse recorte tratar o design como imagem, utilizando a fotografia como técnica de produção de imagens e plurisignificações. Mostrar e discutir um lado etnológico dos retratos, promover diálogos das imagens e suas várias realidades. Procuro estabelecer uma visão não apenas gráfica sobre estas imagens mas também sua leitura dos significados superficiais ou não.
Provavelmente, com o passar dos textos e reflexões, ainda mude um pouco a minha visão sobre o tema. Descubriremos quando o trabalho estiver escrito.
Aos poucos, vou criando este diário, e não só eu como quem me ajudar durante o processo e/ou ler este blog poderemos perceber estas mudanção e os caminhos percorridos ! por enquanto acho que é só !
que se inicie esta p**** !!!
chegou a hora !!!